terça-feira, 23 de junho de 2009

JORNAL PESSOAL



Política
O deputado federal Jader Barbalho pode estar abusando: da sorte e das circunstâncias. A sensação de onipotência pode levar a um senso de irrealidade. Induz ao erro, às vezes fatal. Mas talvez o líder do PMDB se ache em condições de se expor a todas as sortes e circunstâncias. Afinal, se elegeu duas vezes seguidas deputado federal, com as maiores votações já registradas na história do Pará para esse cargo. E ainda sobraram votos para sua ex-esposa, Elcione Barbalho, retomar o seu lugar na Câmara Federal, depois de sido eleita vereadora de Belém em 2004.
Jader também foi o pêndulo das duas últimas eleições para o governo do Estado: ganhou quem ficou ao seu lado. Conseguiu ainda colocar o filho na prefeitura do segundo mais populoso município do Estado. E suas empresas de comunicação quebraram a plena hegemonia do grupo Liberal, dividindo o mercado (e a influência sobre a opinião pública) como nunca nas últimas três décadas.
Essas conquistas se consolidaram depois que Jader foi preso, foi exibido algemado pela Polícia Federal e ficou durante 11 horas trancado numa cela, acusado de desviar dinheiro público para enriquecimento pessoal ilícito, logo em seguida a uma dupla demissão desonrosa (da presidência do Senado e do mandato de senador). Num intervalo de apenas sete meses, em 2001, seu desempenho pode ser comparado ao renascimento da fênix: as glórias após as cinzas.
Talvez impulsionado por esses resultados, ele pode estar dando um novo passo na sua vida. Seu segundo casamento parece chegar ao fim, 15 anos depois de iniciá-lo com a sobrinha de sua ex-primeira esposa, em meio a um novo relacionamento amoroso, que ainda não se sabe se culminará em um terceiro casamento ou será fugaz. Desta vez, a relação é com uma mulher em pleno início de uma promissora carreira política. É Simone Maria Morgado Ferreira, que conseguiu se eleger vereadora de Bragança, em 2004, com 1.083 votos, a 5ª mais bem colocada.
Até então, sua maior façanha foi ser rainha das rainhas do carnaval em 1988, como representante do Clube de Engenharia. A promoção é do grupo Liberal - por ironia, o maior inimigo de Jader Barbalho. É também sobrinha do vereador Gervásio Morgado, muito ligado aos Maiorana. Mas não era apenas uma patricinha: formada em economia, passou com destaque em concurso público para auditora fiscal da Secretaria da Fazenda do Estado. Casou e, aos 37 ou 38 anos, tem três filhos.
Dois anos depois de assumir a Câmara Municipal de Bragança, Simone conseguiu dar um novo salto, sem concluir seu primeiro mandato: com 21.260 votos, garantiu o penúltimo lugar na bancada do PMDB na Assembléia Legislativa do Estado. Parte dessa vitória já foi devido ao apoio de Jader, ao lado de quem ela passou a ser vista com certa constância. Os murmúrios, comentários e boatos se tornaram inevitáveis. Simone, porém, se empenhava no legislativo em mostrar que não é apenas um apêndice do líder maior, como foi também o esforço da segunda esposa de Jader
Márcia Cristina Zahluth Centeno precisou superar a reação inicial, na sociedade e nas famílias próximas, provocada pela sua ligação ao marido de sua tia, 19 anos mais velho. O romance pôs fim a um casamento de 24 anos, que parecia resistente aos desafios, o de Jader com Elcione. Os dois têm a mesma idade (agora, 64 anos), nasceram até no mesmo mês, de outubro, namoraram desde cedo, casaram logo e foram companheiros inseparáveis desde que Jader entrou na política, em 1966, se elegendo vereador de Belém. Mas o marido preferiu iniciar, em 1994, nova vida com a menina que fora dama de honra do seu casamento. Concluiu a separação de Elcione em 1996 e se casou com Márcia no ano seguinte.
Depois desse primeiro estigma, atraindo-lhe a ira da tia, que rompeu as relações com a própria irmã, mãe da desafeta, Márcia enfrentou outro: o furacão desencadeado pela descoberta de fraudes na Sudam (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia), a partir do momento de que outro amigo de juventude de Jader, José Arthur Guedes Tourinho, foi colocado no cargo. Um projeto do qual Márcia era uma das donas, para criação de rãs em Icoaraci, aprovado em 1989, antes da sua ligação com Jader, teria sido beneficiado ilicitamente com liberações de recursos dos incentivos fiscais.
A denúncia correu mundo como verdadeira, independentemente do fato de que não foi suficientemente comprovada pelos acusadores. Essa denúncia não causou danos diretos a ela, mas por várias outras Jader teve que abrir mão da presidência do Senado, renunciado ao mandato, foi processado, preso e humilhado publicamente. Parecia que sua carreira política chegaria ao fim.
Ele, porém, não amargou nem sequer um semestre de exílio: em 2002 decidiu disputar novamente um lugar na Câmara Federal, para o qual foi eleito pela primeira vez em 1974, cumprindo dois mandatos, até 1982, quando se elegeu pela primeira vez governador do Estado. Voltou como um dos deputados federais com mais votos em todo país em 2002. E renovou o mandato em 2006.
O que planeja Jader Fontenelle Barbalho para 2010? A brusca mudança na sua vida pode ser um movimento apenas pessoal, por parte de quem se ligou sentimentalmente a outra mulher e viu esse relacionamento precipitar as conseqüências (as fontes dizem que a iniciativa da separação foi de Márcia, ao confirmar pessoalmente o romance do marido, sobre o qual até então apenas tivera notícias; Jader teve que alugar um apartamento para morar).
À parte essa dimensão do novo acontecimento, que não é exatamente recente, o fato de que, pela primeira vez, o ex-governador tem ligação com uma política em plena carreira, pode significar que ele pretende para Simone Morgado planos semelhantes (ou até maiores) do que os que foram reservados para Elcione, num esquema de constituição de uma dinastia política mais duradoura?
Sua primeira mulher esteve à beira de subir um estágio acima do cargo político proporcional. Elcione disputou uma vaga no Senado e está convencida (como Jader) de que só não a conseguiu porque o PT não cumpriu o compromisso assumido - mais com ela, que sempre apoiou as iniciativas do partido, do que com o ex-marido, reticente nessa relação. À última hora, os petistas desviaram votos que deviam ter ido para Elcione, causando-lhe a maior derrota eleitoral da sua carreira (Duciomar Costa é que foi eleito). Ela precisou recomeçar dois anos depois como vereadora de Belém, para em seguida voltar à Câmara Federal, para o terceiro mandato.
Significa que Elcione poderá desenvolver sua trajetória política independentemente de Jader? Provavelmente, não. De certeza, o que se tem, 15 anos depois do fim do seu casamento, é que ela não deverá tratar o ex-marido como inimigo, por mais que suas feridas não tenham cicatrizado de todo. Por causa da família, dos negócios e da própria política, os dois parecem condenados a manter a parceria. A dúvida, agora, é saber como se comportará Márcia Centeno Barbalho, com quem Jader tem dois filhos. O esquema será o mesmo que vigorou com Elcione, conciliando todos os interesses do antigo casal, através do entendimento, ou a ruptura será conflituosa e deverá se desdobrar em novos litígios?
Márcia nunca foi seduzida pelo percurso político, nem abriu mão de sua independência econômica. Pelo contrário: ela assumiu a condução das fazendas que já eram de Jader e atualmente constrói uma autêntica mansão num dos condomínios exclusivos na área metropolitana de Belém. Por isso, contrariando as expectativas, a iniciativa do rompimento foi dela. Talvez pensando em poder retomar sua vida com mais naturalidade e menos pontos de atrito.
De um modo ou de outro, ela conseguiu se manter à sombra e à margem da tumultuada vida pública do marido. O que vai responder por sua atitude a partir de agora é mais a dimensão íntima da sua história recente com Jader Barbalho. Quando esse aspecto tem um peso ponderável, os franceses, especialistas no assunto, recomendam: chercher la femme. É o caso.


Vontade real
Política
O PT pôs fim aos 12 anos de hegemonia tucana na política do Pará, mas não instalou uma nova forma de governar no Estado. As mudanças foram mais cosméticas e retóricas. As continuidades é que prevaleceram, de alto a baixo. Um pequeno exemplo a mais dessa constatação é oferecido pela sorte da Estação das Docas. O projeto foi combatido como uma intrusão onerosa do poder público num espaço essencialmente privado. A um custo final mais do que dobrado em relação ao orçado e tropelias pelo caminho, a Estação foi concluída, inaugurada e administrada imperialmente pelos delegados do arquiteto Paulo Chaves Fernandes. À frente do negócio, para efeitos legais, estava uma organização social, a Pará 2000. Mas ai de quem não cumprisse as determinações - urbi et orbi - do voluntarioso super-secretário (que era apenas de cultura, para quem quisesse acreditar).
O PT mudou a Estação das Docas? Não de início, mas agora, sim. O local é uma das pedras de fantasia do colar (de bijuteria) oferecida a um novo aliado político. As pessoas indicadas pelo Partido Verde entendem do riscado? A julgar pelo pânico que se estabeleceu entre os donos de restaurantes e demais pontos comerciais do espaço, não. Querem salários, DAS, vantagens, status e o que couber no butim. Um esforço de ajuste e correção de rumos, que estava em curso, foi lançado à baía das conveniências políticas e do arbítrio do executivo.
A OS Pará 2000 morreu, sem fita vermelha, se é que não nasceu morta. Atender aos interesses da clientela, respeitar a integridade dos conselheiros, servir ao público? Balela. O baile da ilha Fiscal acabou e os convivas estão à espera do “cristo” para voltar aos seus domicílios. O povo passa fome? Que coma brioches, pensa a Maria Antonieta ao tucupi. O exemplo da Estação é apenas um. Há muitos outros, bem mais graves. Mas é pelo dedo que se conhece o gigante. Quem ocupa o trono emite de lá os éditos reais e faz valer sua vontade: na Estação, no Hangar, na Seduc et caterva. Só não em Brasília, onde, ao que parece, Lula não mudou a primeira opinião sobre o governo petista do Pará. A primeira impressão ficou.

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