sábado, 30 de maio de 2009

Charles não o Principe.

BASTIDORES –Charles Alcântara volta à cena
Depois desembarcar em circunstâncias traumáticas do governo Ana Júlia Carepa, que ajudou a eleger e do qual foi articulador político, Charles Johnson da Silva Alcântara (na foto, à esq.), às vésperas dos 45 anos, volta ao proscênio, aparentemente disposto a não desperdiçar a oportunidade de esclarecer episódios ainda obscuros de sua passagem pelo poder. Isso é o que deixa transparecer sua presença em uma modesta rádio FM, que funciona a título precário e por isso é legalmente clandestina, o que aparentemente traduz a disposição do ex-chefe da Casa Civil do governo em lançar luzes sobre fatos ainda obscuros e controvertidos.Independentemente de eventuais projetos políticos que possa cultivar, soa saudável, por estimular o contraditório, a predisposição de Alcântara em abandonar a espécie silêncio obsequioso que se impôs, após a catarse que representou fazer o Blog do Charles (http://blogdocharlesalcantara.blogspot.com), que manteve no ar por três semanas, em 2008. A decisão de interromper a edição do blog, atendeu a um apelo de um amigo pessoal, João Batista, o presidente regional do PT.

BASTIDORES – Autoridade moral
Ao mesmo tempo personagem e testemunha privilegiado de um período conturbado da política paraense, que representou a sucessão estadual de 2006 e os arranjos de bastidores do governo de coalizão de Ana Júlia Carepa, a primeira governadora eleita da história do Estado, Alcântara certamente tem muito a falar e a esclarecer. O que tem condições de fazer não só por ter sido coordenador da campanha de Ana Júlia e articulador político da governadora, mas porque se retirou do poder procurando preservar sua dignidade política e pessoal, rejeitando compensações capazes de tisnar sua autoridade moral.Depois de retornar à Sefa, ele volta à cena como presidente do Sinditaf, o Sindicato do Grupo Ocupacional, Tributação, Arrecadação e Fiscalização da Secretaria de Estado da Fazenda, talvez um indício de suas eventuais pretensões eleitorais. Seja como for, poderá ser grande sua contribuição, se não perder a perspectiva – cuidado que parece cultivar – de que em política não convém cultivar o revanchismo e nem estimular a desmemória.

BASTIDORES – Testemunha privilegiada
Em um primeiro momento em off, para alguns interlocutores, posteriormente pelo blog que manteve no ar, Alcântara já antecipou sua versão sobre os bastidores de algumas passagens do governo Ana Júlia Carepa. São relatos que vale a pena recapitular, porque se constituem na versão de uma testemunha privilegiada, que foi também personagem.Aliança com Jader – Alcântara relata que a iniciativa de estabelecer uma aliança com o PMDB em 2006 foi do PT. “Foi o PT que pediu o apoio de Jader Barbalho”, conta. E acrescenta que coube ao ex-governador, o morubixaba peemedebista no Pará, rever a estratégia de campanha de Ana Júlia Carepa, inclusive descartando uma aliança entre o PT e o PMDB desde o primeiro turno, como desejavam os petistas. “Naquele altura, não se discutiu a divisão de cargos. Tratava-se de uma união para vencer as eleições”, testemunha.A partilha de cargos – Segundo o depoimento de Alcântara, somente depois da eleição de Ana Júlia Carepa é que foi discutida a partilha de cargos com o ex-governador Jader Barbalho. O ex-chefe da Casa Civil conta ainda que ficou definido que um terços dos cargos seria destinado ao PMDB, a quem o PT apoiaria para eleger o presidente da Assembléia Legislativa. “Jader Barbalho manifestou boa-vontade e se mostrou visivelmente empenhado em facilitar as negociações”, relata Alcântara.O destino da Sespa – No relato de Alcântara, a idéia, em princípio, era destinar a Sespa, a Secretaria de Saúde Pública, ao PMDB. Foi quando o ex-deputado José Priante, candidato a governador pelo PMDB e primo de Jader Barbalho, se antecipou a este e foi à casa de Ana Júlia, para negociar diretamente com a governadora eleita o seu quinhão no novo governo. Ana Júlia destinou-lhe então a Sespa, no pressuposto que estaria contemplando o PMDB, conforme a versão de Alcântara. “Não acredito que Ana Júlia tenha agido com segunda intenções. O clima que se vivia, na ocasião, era de euforia”, acentua, sugerindo, subliminarmente, que a governadora, agiu por impulso, subestimando as reservas mútuas que permeavam, desde aquela época, as relação de Jader Barbalho com José Priante.A gestão de Halmélio – Na leitura do ex-chefe da Casa Civil, os problemas enfrentados na gestão de Halmélio Sobral como secretário estadual de Saúde, por indicação de José Priante, estão diretamente vinculados à ascendência na Sespa do irmão do ex-deputado federal pelo PMDB, Paulo Priante, que chegou a ser secretário adjunto. “O pobre do Halmélio acabou enfrentando situações constrangedoras”, relembra Alcântara, em alusão às denúncias de corrupção envolvendo prepostos de Priante na secretaria.A queda de Priante – No entender de Alcântara, em um depoimento feito em off, segundo relatam seus interlocutores, deriva certamente das circunstâncias sob as quais José Priante obteve a Sespa, a indiferença de Jader Barbalho quando o ex-deputado federal do PMDB caiu em desgraça e perdeu a secretaria, sob a suspeita de corrupção supostamente patrocinada pelos seus prepostos. Na ocasião, Priante foi a Jader pedir a solidariedade do PMDB. De bate-pronto o ex-governador, que é o manda-chuva do partido no Pará, descartou essa possibilidade, argumentando que Priante não consultara o PMDB antes de abocanhar a Sespa, à revelia do partido. Com isso, além de enquadrar Priante, Jader tratou, sobretudo, de preservar a aliança do PMDB com o PT.Vício de origem – Alcântara identifica no isolamento da governadora um vício de origem do atual governo. “É um governo da DS e dos amigos”, disparara, sem poupar a Democracia Socialista, a tendência interna do PT, minoritária nacionalmente e no Pará, mas que detém o comando da máquina administrativa, porque dela faz parte Ana Júlia.Núcleo do governo – O ex-chefe da Casa Civil critica também a ascendência sobre Ana Júlia do núcleo do governo, por considerá-la deletéria, porque atropela a ética, em nome de um suposto pragmatismo. Esse núcleo ele afirma ser constituído por Marcílio de Abreu Monteiro, secretário de Projetos Estratégicos e ex-marido da governadora; Maurílio de Abreu Monteiro, secretário de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia e irmão de Marcílio; Cláudio Alberto Castelo Branco Puty, chefe da Casa Civil; e Carlos Botelho da Costa, consultor geral do Estado. “Quem entra em rota de colisão com esse grupo fatalmente cai, como foi o meu caso”, constata.Joana Pessoa - E Maria Joana da Rocha Pessoa, a jovem senhora notabilizada pelo milagre da multiplicação? "Joana Pessoa é a responsável pelo caixa de campanha", trata de esclarecer Charles Alcântara, sem descer a maiores detalhes, quando indagado sobre o papel da atual administradora do Hangar, que é também amiga pessoal - da mais estrita confiança - da governadora Ana Júlia Carepa.Lealdade – Ele também revela-se um crítico ácido do que identifica como relação ambivalente do núcleo do governo Ana Júlia Carepa com os aliados preferenciais do PT, e mais especificamente com o PMDB. “Sempre adverti para a necessidade de agirmos com lealdade, para que pudéssemos inspirar confiança e termos a lealdade de nossos aliados”, assinala.A origem do G-8 – Suposto inspirador do G-8, Alcântara nega ter sido o responsável pelo surgimento da bancada fisiológica que garante apoio ao Palácio dos Despachos sob a versão prostituída do princípio franciscano segundo o qual é dando que se recebe. Ele diz que o deputado Airton Faleiro, líder do governo na Assembléia Legislativa, foi comunicado que estava em formação um bloco suprapartidário no Palácio Cabanagem. O ex-articulador político do governo conta, segundo alguns dos seus interlocutores, que, quando no comando da Casa Civil, foi procurado pelos deputados estaduais Cezar Colares (PSDB) e João Salame (PPS), que reivindicavam espaço no governo, em nome desse bloco parlamentar suprapartidário, em troca de apoio político à administração Ana Júlia Carepa.O preço do apoio - “Mas não se negociou no varejo”, garantiu Alcântara, a esses seus interlocutores. Estes dizem que ele rebate com veemência a versão de acordo com a qual teria estimulado o governo Ana Júlia a ficar refém da voracidade dos parlamentares fisiológicos, a cada votação de interesse do Palácio dos Despachos. O preço da adesão dos fisiológicos, conforme relatos de Alcântara, foi um valor em emendas, estipulado em R$ 600 mil, e emprego para seus correligionários.Discussão com Ana Júlia – Em suas reminiscências, Charles conta também que às vésperas de sua exoneração teve uma ácida discussão com a governadora Ana Júlia Carepa. O estopim da discussão foram as críticas do ex-chefe da Casa Civil diante do que identificava como postura política tíbia do governo. “Foi uma discussão política; nenhum de nós faltou ao respeito”, recorda, admitindo que a discussão evidenciou a rota de colisão em que se encontrava com as diretrizes encampadas pela governadora, sem chegar a identificá-la, porém, como a causa imediata de sua exoneração.A exoneração – Sobre sua exoneração, Alcântara revela que sequer a governadora lhe explicitou os motivos. Ana Júlia simplesmente pediu o cargo de volta para Charles Alcântara. “Ela não explicou a razão”, relembra. E confirma que se recusou a atender a sugestão, feita pela governadora, para que pedisse exoneração. “Realmente, recusei-me a pedir exoneração”, diz, justificando que assim fez por uma questão de princípio, por estar sendo defenestrado por motivos puramente políticos. "Exonere-me. Eu não estou pedindo exoneração; é a senhora que está pedindo o cargo de volta", devolveu, firme, quando abordado por Ana Júlia Carepa.Sinecuras recusadas - De resto, Charles Alcântara confirma, nos seus relatos, que optou por voltar à Sefa, a Secretaria da Fazenda, da qual é originário, e se recusou a ficar abrigado em alguma sinecura, como compensação pela perda do status de secretário, descartando seguir o script habitualmente cumprido por quem é defenestrado de algum cargo importante do governo Ana Júlia Carepa. "Recusei não uma, mas várias propostas", conta também.

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